Crônicas

Ode aos meus 3.7

rito de passagem da cabeça aos pés

Quero-me a mim como nunca antes,
como quem encontra uma versão esquecida de si no fundo de uma gaveta emperrada: força um pouco e…
Crrrrr…..
[o reconhecimento é recíproco pelo cheiro]

Quero-me a mim com a presença de um personagem que não sofre expectativas: meras sinas de ator, sempre certo de poder controlar algo ou alguém

Quero a beleza e a felicidade que se mantêm intactas dentro de um
presente que se mantem por conta própria:
torto
luminoso
misterioso
coisas que dão certo por mero acidente

Quero-me a mim sem os resquícios do passado
– este já foi
e, por ter sido, deixou migalhas no tapete:
memórias são assim, sem modos

Quero-me a mim sem pretensões além
Quero o hoje:
a pele
a voz
o peso,
a altura
a visão
que tenho do mundo
da varanda do meu apartamento
onde tudo parece mais honesto
quando o vento chacoalha as minhas
plantas, tantas

Quero-me a mim como quero a meu cachorro,
que me sorri com ar de quem entende tudo
sabe de tudo
e, ao mesmo tempo,
de nada – ainda assim, acerta o essencial

Quero beber da fonte que alimenta meu rio,
esse rio d’água que me percorre por dentro
e muda de profundidade conforme a claridade do dia

Trinta e sete…
o mesmo número que veste os meus pés agora
}amortecem
protegem
isolam; guiam
guardam
estabilizam e guiam
meus passos
faz só 37 primaveras

Quero a centelha da vida que não erra
apenas segue; ainda nos
dissabores
odores
pequenas esquisitices
que cunhamos… cotidiano

Da chuva que atravessa o branco do dia nublado de hoje…

Do brilho opaco e insistente da luminária – única – a que acendeu e resplandesceu sobre o paralelepípedo antes do anoitecer, na rua…

Dos poucos pares de pernas que caminham neste fim de clarão dominical…

Da vida
Do aqui
Do agora

Quero a felicidade do barulho das gotas na telha:
compassos simulando o escrever uma carta?
usando a minha Olivetti para
alguém, que nunca a receberá
 – embora eu insista em enviar

Da vida
Do aqui
Do agora

Nada mais quero
além de querer-me
Sempre
e mais
como quem volta
a um lugar amado
– a despeito de tudo –
sabendo aquele se mover
um pouquinho
todos os dias

Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.

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